sábado, 12 de junho de 2010

Artigo de Luis Signates

As Federações e as seleções literárias

Luiz Signates

Preocupação com os livros de qualidade duvidosa pode conduzir as Federações ao arriscado terreno da censura literária, reduzindo o espaço da liberdade do pensamento espírita.

Temos acompanhado atentamente algumas discussões e lido alguns documentos e artigos divulgados por entidades federativas, preocupadas com a seleção doutrinária das obras espíritas. O assunto é sério e merece uma análise aprofundada, para não incorrermos em equívocos antigos.

A preocupação dos confrades vem sendo inspirada na nobre intenção de contribuir para o aprimoramento da difusão espírita através do livro. Em diferentes documentos e artigos, lideranças das Federações Espíritas têm exaltado a importância de se destacar a qualidade de conteúdo e forma das publicações, buscando critérios nobres para que isso seja feito, se referindo à responsabilidade dos dirigentes quanto à orientação positiva e apontando para inegável avalanche de obras claramente ruins na literatura espírita atual.

Entretanto tais argumentos têm ultimamente servido à estruturação de práticas seletivas institucionalizadas de valor, no mínimo, discutível. Ancorados na seriedade com que Kardec praticou a seleção de ditados mediúnicos, tais companheiros defendem a seleção institucionalizada, dos livros a serem vendidos nas livrarias espíritas, ou seja, que os catálogos das Federações sejam tomados como referência para seleção e que os livros que contenham “erros doutrinários” sejam banidos desses catálogos. Um desses documentos (preferimos não citar) propugna uma técnica que consiste em rejeitar “tudo o que peque contra a lógica e o bom senso”, aceitar somente as obras com destacada qualidade (literária e alcance instrutivo), repelir o vulgar, o pueril, o erro doutrinário (mesmo que, no conjunto, a obra apresente boas idéias), o simplório, o polêmico, o repetitivo e os princípios estranhos à Doutrina.

Sem pretender criar polêmica ou desenvolver uma crítica irresponsável contra entidades (até porque sou trabalhador de uma, que, aliás, não adota tais critérios), preocupa-me que tais instituições chamem para si o papel de seletores bibliográficos. O Espiritismo é uma movimentação espiritual emancipadora, baseada na liberdade de pensamento e expressão, sendo impróprio e regressivo operar uma institucionalização da difusão de suas idéias.

Outro aspecto preocupante é que, alicerçando-se no discutível conceito de pureza doutrinária (inexistente na obra de Kardec), tais iniciativas acabam conferindo a confrades “com base doutrinária” vastos poderes ideológicos, para rejeitar qualquer obra, pela simples emissão de um conceito “estranho”, “mesmo que no conjunto apresente boas idéias”. Eis aqui, uma argumentação que em nada ficaria a dever às que alicerçam o “índex”, da Igreja Católica, ainda que, desta vez, não haja a pretensão de publicar uma lista de livro proibido (embora seja obrigatória a sua existência, a fim de impedir os pedidos).

Tal ordem de idéias contraria o caráter progressivo da Doutrina Espírita. Quem disse que o Espiritismo já atingiu a verdade absoluta? Quem disse que os nossos princípios e idéias são imutáveis? Quem disse que as idéias espíritas não progredirão mais? Por tais critérios seletivos, se tivéssemos na década de quarenta a estrutura que temos hoje, provavelmente rejeitaríamos a obra “Nosso Lar”, de André Luiz. O que consideramos absurdo hoje pode ser a grande verdade de amanhã. Se estudarmos história da ciência, veremos que as teses de Galileu Galilei pecavam, em sua época, contra a lógica e o bom senso aristotélicos hegemônicos na escola paripatética. Nem por isso deixaram de ter validade.

Apesar de bem intencionadas, tais medidas redundam claramente na institucionalização da opinião doutrinária, reduzindo o espaço de liberdade de pensamento dos espíritas. Aparentemente boa, essa intenção esconde um risco que não vale a pena ser corrido: o de banir a Inteligência, a criatividade e as novas descobertas do espaço de debate do Espiritismo organizado. O Espiritismo tem que estar aberto para dúvidas e contradições, criando espaço para que sejam clara e abertamente discutidas, e não escondidas e policiadas, como pretendem os vigilantes da pureza doutrinária.

Considero, por isso, que o nosso esforço deve estar na tarefa de criar o bem, e não espancar o mal. Ante os aparentes desvios, é oportuno seguir a orientação de Jesus Cristo: “Deixai o joio crescer no meio do trigo, pois aquele será ceifado na hora da colheita”. Deixar crescer e localizar a ceifa na colheita são medidas de elevada simbologia, para o assunto em questão. Eis, portanto, as minhas propostas para uma postura não só das Federativas, como de toda e qualquer instituição coerente com os fundamentos espíritas:

A nenhuma instituição cabe o papel de censora. Não cabe às entidades espíritas selecionar obras editadas por outras casas, devendo vendê-las sem problemas, desde que procuradas pelo movimento espírita. Percamos o medo das idéias e permitamos ao joio que cresça no meio do trigo. O critério é o da escolha racional, baseada no pressuposto de que o movimento espírita deve ter o direito de escolher o que lhe convém, sendo desnecessário e, mesmo, prejudicial que alguma instituição ou grupo assuma pelos espíritas em geral esse papel.

As casas publicadoras assumem a responsabilidade pelo que publicam. Para isso adotarão os critérios que lhes parecerem melhores, mesmo os mais rigorosos, levando em conta a contribuição à difusão e ao progresso do pensamento espírita.

E, por fim, que cada distribuidora ou revenda dê solução comunicativa ao problema da crítica literária espírita. Que as Federativas façam uma campanha voltada para os consumidores da literatura espírita, objetivando receber críticas e análises destes a respeito das diversas obras publicadas. Tal providência poderá ser feita com a inserção, em cada livro vendido, de uma “carta resposta comercial” (custo embutido no preço da venda), a ser preenchida pelo leitor, analisando a obra lida. Respondida, uma cópia dessa carta seria enviada aos respectivos autores e editores. Com isso, será aberto um rico espaço público para a comunicação e o debate, sem que as Federações assumam, indevidamente, o papel de censoras ou de fiscais do pensamento alheio, em nome de uma suposta pureza doutrinária. Talvez se possa interpretar que aqui, a recomendação de Jesus encontra sua razão: a ceifa será feita na colheita, isto é, a separação do joio e do trigo doutrinários seria desenvolvida na leitura, e não nos processos intermediários.

Dentro desses critérios, acredito que teremos um sistema simples e eficiente de aproveitamento de nossa literatura, além de criar um sistema baseado na liberdade e na comunicação para aperfeiçoá-la.

Revista Espírita Allan Kardec, nº 33 – janeiro/março – 1997

Nenhum comentário:

Postar um comentário